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Textos > História da Educação Física > FREITAS, L. L. L. de; SCHNEIDER, O.; FERREIRA NETO, A. Hollanda Loyola, produção e circulação de saberes escolares: infância e Educação Física (1938-1944). In: VIII Congresso Luso Brasileiro de História da Educação, 2010, São Luiz, MA. Infância, juventude e relações de gênero na História da Educação. São Luiz, MA: UFMA, 2010. v. 1. p. 1-19.

FREITAS, L. L. L. de; SCHNEIDER, O.; FERREIRA NETO, A. Hollanda Loyola, produção e circulação de saberes escolares: infância e Educação Física (1938-1944). In: VIII Congresso Luso Brasileiro de História da Educação, 2010, São Luiz, MA. Infância, juventude e relações de gênero na História da Educação. São Luiz, MA: UFMA, 2010. v. 1. p. 1-19.



HOLLANDA LOYOLA, PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DE SABERES ESCOLARES: INFÂNCIA E EDUCAÇÃO FÍSICA (1938-1944)[1]

Luana Luzia Lóss de Freitas (UFES)

Omar Schneider (UFES)

Amarílio Ferreira Neto (UFES)

Introdução

A Educação Física brasileira vem sendo escrita por diferentes atores sociais, uns mais conhecidos, como Fernando de Azevedo, Inezil Penna Marinho, e outros pouco ou nem mesmo conhecidos, por ainda não terem sido alvo sistemático de estudos ou por estarem na periferia do sistema.

Dentro das propostas da pesquisa A constituição de teorias da Educação Física: o debate em periódicos no século XX, que é desenvolvida, desde o ano de 2000, no Instituto de Pesquisa em Educação e Educação Física (PROTEORIA), buscamos criar as condições para se compreender, por meio da imprensa educacional, a forma como, no Brasil, foi e vem sendo produzida uma teoria para a Educação Física; como, em determinados momentos, agentes sociais dotados de competências específicas se apropriam, sistematizam e fazem uso do conjunto de saberes provenientes de diferentes áreas do conhecimento, para justificar o papel da Educação Física na sociedade e, mais especificamente, no interior das instituições educacionais como disciplina escolar.

Dentro desta pesquisa, o trabalho de Schneider (2010) nos aponta um ator, conhecido como Hollanda Loyola, que muito publicou nas décadas de 1930 e 1940, porém ainda hoje é pouco conhecido da História da Educação Física Brasileira. A produção de Hollanda Loyola inclui cerca de 130 artigos na revista Educação Physica, a publicação de 12 livros, além de textos em uma coluna especial no jornal integralista A Offensiva.

Em uma breve revisão bibliográfica[2] sobre Loyola, percebemos que, apesar da sua ampla produção, pouco se sabe sobre ele e sua obra. Dos sete trabalhos que encontramos, cinco tratam de Loyola de forma indireta, pois são estudos sobre periódicos em que ele aparece como redator e/ou editor. Os outros dois são artigos que nos falam brevemente sobre Loyola.

Neste estudo, buscamos analisar a obra de Loyola focando a atenção às prescrições sobre a Educação Física para a infância, entre os anos de 1938 a 1944, a forma de sua circulação, os saberes sobre a infância e sua escolarização. Sobre essas temáticas foram encontrados nove artigos e dois livros.

São nossos objetivos conhecer, dentro dos limites que a investigação permite, quem foi Hollanda Loyola; mapear sua produção referente à temáticaEducação Física para a Educação Infantil; compreender quais eram suas representações sobre Educação Física para a Educação Infantil; e investigar quais saberes sobre a infância são defendidos pelo autor.

A análise realizou-se tendo como referência o universo da História Cultural que, segundo Nunes e Carvalho (2005, p. 37), abre novas possibilidades de discussão, pois deixa de centrar a atenção nos grandes recortes temáticos e passa a fazer opção “[...] por análises pontuais, delimitadas tão exaustivamente quanto possível, da particularidade das práticas e dos produtos culturais investigados”.

Como o estudo tem referência na História Cultural, utilizamos como guia o conceito de representação trabalhado por Chartier (1990) que freia o entendimento do conceito como alguma coisa separada da materialidade, algo como representação mental, ideias desencarnadas, longe dos dispositivos que as põem em circulação.

Ao trabalhar com o conceito de representação, analisamos as publicações de Loyola, tanto no periódico quanto nos livros, procurando nesses locais as representações que ele apresenta, não esquecendo que a representação é, na verdade, a produção de uma rede de relações materiais e simbólicas.

Ainda guiados pelo conceito de representação, analisamos os impressos delimitando o lugar destes como materialização de um projeto cultural que envolve estratégias de circulação de saberes pedagógicos, local onde se encontram sínteses de múltiplas relações sociais que se depositam no texto. Isso porque acreditamos que “[...] a linguagem/discurso não revela o real” (VEYNE, 1998, p. 275), mas sim algo sobre o real, que são as práticas de representação.

Visualizar o material impresso como estratégia permite observá-lo como representação, mas representação que não está envolta por uma aura de neutralidade, pois, segundo Chartier (1991), é preciso que se observe que essas representações são coletivas, o que pressupõe que estejam sempre em concorrência e em competição, o que faz com que se considere que são ‘matrizes de práticas construtoras do próprio mundo social’ (CHARTIER, apud SCHNEIDER, 2003, p. 21).

O estudo busca se contrapor à tendência de estudar o mundo dos impressos valorizando apenas o seu conteúdo, ou seja, uma leitura que se prende aos discursos veiculados, aos tipos de discursos e às relações entre eles. Características que se percebem com muita facilidade em um tipo de pesquisa histórica preocupada com o discurso fundador, ou empenhada em produzir repertórios, acreditando que a materialidade das práticas reside nos discursos. Certeau (2004, p. 71) declara que é “[...] impossível analisar o discurso histórico independente da instituição em função da qual ele se organiza silenciosamente”. Não há, então, como investigar a produção de Loyola sem trabalhar com a ideia de que ele publicava em uma revista que tinha objetivos próprios implícitos e que só abordava o que estava dentro desses objetivos. O que ele escrevia era também o que ele acreditava e queria que outros acreditassem acerca da Educação Física.

Outro aspecto que não podemos deixar de lado na análise dos dados é o período de publicação do referido autor, apesar de não ser nosso intuito deixar que isso se torne a chave interpretativa para os problemas que aparecerem na investigação. Como citado, Loyola publicou, aproximadamente, entre 1938 e 1944, período em que vivíamos em um Estado autoritário, disposto a impiedosamente calar qualquer voz dissonante. É entre as décadas de 1930 e 1940 que temos o período Vargas, quando o Estado se torna paulatinamente mais centralizador, a educação passa por profundas reformas e a industrialização progressivamente torna-se uma realidade. Em relação à Educação Física e esportes, há mudanças, como a produção de leis que tornam a Educação Física obrigatória no Ensino Secundário, a criação da Divisão de Educação Física (1937), como ação fiscalizadora e orientadora dessa disciplina nos estabelecimentos de Ensino Secundário e a criação da Escola Nacional de Educação Física e Desportos (1939).

Diante do exposto, organizamos o texto da seguinte forma: na primeira parte, expomos quem foi Hollanda Loyola e, na segunda, procedemos a um mapeamento e discussão sobre as representações de Loyola a respeito da temática Educação Física Infantil.



Conhecendo Hollanda Loyola

Ao olharmos para os intelectuais preocupados com a Educação Física, nas décadas de 1930 e 1940, poucos são aqueles percebidos como representativos. De forma mais intensa conhecemos Fernando de Azevedo e Inezil Penna Marinho, mas acreditamos que é preciso olhar para essas décadas e observar que muitos são os atores que ficaram desaparecidos, porque não foram alvos de estudos mais sistemáticos, sua produção não chegou a causar impacto, ou porque estavam na periferia do sistema.

Um autor pouco conhecido por estar na periferia do sistema é Hollanda Loyola. Ele foi um dos diretores da revista Educação Physica, responsável pelos momentos em que o impresso teve maior periodicidade, amplitude temática e estabilidade editorial.[3] Para Schneider (2010, p. 83), a viabilidade editorial da revista,[...] se deu em grande parte pela entrada de Hollanda Loyola para a redação do impresso, primeiramente assumindo a função de redator no lançamento da Revista n. 33 (1939), para depois, no número seguinte, assumir a direção técnica do periódico. Esse diretor, durante o período de estabilidade, torna-se a pessoa-chave da publicação [...]. Ele mesmo, durante o período em que se tornou diretor, foi a pessoa que mais publicou no periódico.

Além do papel de destaque na revista Educação Physica, o autor sobressaiu-se também pelas suas publicações no jornal A Offensiva,[4] tendo uma coluna própria a partir de 1936 (Chronica do Dia), na qual escrevia diariamente. Posteriormente, foi nomeado como chefe da Milícia Integralista.

Como autor de livros sobre Educação Física, ele teve 12 obras[5] publicadas em aproximadamente seis anos. Esses livros geralmente eram compilados com o que ele já havia publicado na Revista, utilizando por vezes até as mesmas capas. Os livros eram divulgados na revista Educação Physica, pelo projeto editorial denominado Biblioteca Esportiva. Alguns de seus livros, conforme os editores, chegaram a receber prêmios nacionais e internacionais.

Além da ampla publicação, Loyola ainda assumiu importantes cargos no âmbito da Educação Física. Foi diplomado como professor de Educação Física pela Escola de Educação Física do Exército, chegando na instituição militar à patente de sargento. Atuou como instrutor dos Tiros de Guerra da 1ª R. M. Dentre os cargos que assumiu no meio civil, destacamos a sua atuação como inspetor de Educação Física do Ministério da Educação e Saúde; presidente do Departamento de Educação Física Superior da Associação Brasileira de Educação Física (Universidade da Capital Federal); diretor do Colégio Paula Freitas, de Copacabana; e diretor-técnico do Departamento de Educação Física do Ginásio Vera-Cruz.

Hollanda Loyola entra para a revista Educação Physicano ano de 1938 e é a partir de então que passa a publicar em um periódico específico da Educação Física. Anteriormente ele escrevia sobre o tema Educação Física em uma coluna do jornal integralista A Offensiva. Escreveu no jornal integralista de 1932 a 1938, mas, com a entrada do Partido Integralista na clandestinidade, durante o governo de Getúlio Vargas, ele passa a publicar somente no impresso da Educação Física.

Hollanda Loyola faleceu no ano de 1944, interrompendo precocemente sua carreira, mas sua produção continuou a ser veiculada por meio de reedições de seus livros e pela revista EducaçãoPhysica, uma vez que era a proposta do impresso que a revista se tornasse uma grande enciclopédia da Educação Física. Para isso, recebeu encadernações e transformações de seus números em volumes que passam a ser consultados como livros.[6]

Infância e Educação Física por Hollanda Loyola

De 1938 a 1944, Hollanda Loyola escreveu sobre diferentes temáticas referentes à Educação Física, como pedagogia, ginástica, esportes, Educação Física masculina e feminina, moral, estética, educação dos sentidos, raça, higiene e escolarização. Dessa produção, nove artigos (Tabela 1) e dois livros (Tabela 2) discutem a Educação Física Infantil.

TABELA 1: LOYOLA E A EDUCAÇÃO FÍSICA INFANTIL NA REVISTA EDUCAÇÃO PHYSICA

Ano

Número 

Título

1939 

34

Educação física infantil (dos 4 aos 6 anos)

1940

41

Educação física infantil: primeira infantil – período pré-escolar

1940

42

Educação física infantil: segunda infância

1940

43

Educação física infantil: terceira idade

1940

44

Educação física infantil

1941

53

Ginástica para o bebê

1942

67

Educação física infantil: breve notícia sobre a educação física nas escolas primárias das principais nações do mundo.

1942

68

Educação física infantil: breve notícia sobre a educação física nas escolas primárias das principais nações do mundo

1942

69

Educação física infantil: breve notícia sobre a educação física nas escolas primárias das principais nações do mundo

TABELA 2: LOYOLA E A EDUCAÇÃO FÍSICA INFANTIL EM LIVROS

Ano

 Editora

 Título

1940

 Cia Brasil

 Educação Física: tratado de Pedagogia

1941

 Cia Brasil

 Ginástica para Todos

Conforme apresentado, Loyola publica seu primeiro trabalho relacionado com a Educação Infantil no ano de 1939 e, já no ano seguinte (1940), aumenta consideravelmente esse número para quatro publicações em quatro sucessivos números da RevistaEm 1941, reduz a publicação para um trabalho e, fora do periódico, publica um livro. Já em 1942, novamente amplia a produção para três trabalhos, encerrando nesse mesmo ano suas publicações sobre a referida temática.

Para compreendermos as representações de Loyola sobre a Educação Física na Educação Infantil, buscamos analisar as prescrições veiculadas nesses trabalhos. A primeira publicação do autor sobre o tema da Educação Física na infância é veiculada em 1939, com o título Educação física infantil (dos 4 aos 6 anos). Nesse texto, ele utiliza como referência as noções da Fisiologia e da Biologia para pensar o desenvolvimento infantil, assim como para prescrever as atividades que deveriam ser trabalhadas como conteúdo das aulas. Ele anuncia quais deveriam ser os objetivos da Educação Física nessa faixa etária, os quais, para o autor, deveriam focalizar não somente os aspectos físicos, mas também as morais:

A educação física nesta idade tem por fim: - sob o ponto de vista moral – desenvolver o raciocínio, o interesse pelo trabalho, o instinto associativo, criar os bons hábitos, as boas maneiras, [...], corrigindo as tendências más e os possíveis defeitos da educação doméstica; – sob o ponto de vista físico – desenvolver a acuidade sensorial, a independência e a coordenação dos movimentos, orientar o desenvolvimento harmoniosos do sistema muscular e do esqueleto, procurar as atitudes corretas e evitar as viciadas, ampliar a capacidade das grandes funções orgânicas, e, especialmente, do aparelho respiratório que encerra uma importância máxima para a vida da criança (LOYOLA, 1939, n. 34, p. 13).

Para Loyola, o professor deveria aproveitar a imitação e a tendência “natural” para o jogo inerente às crianças, evitando exercícios enfadonhos e monótonos que restringiam a liberdade dos alunos, prezando, por outro lado, as atividades dinâmicas. Prescreve que um dos objetivos educacionais da Educação Física na infância seria corrigir as tendências más das crianças.

Os quatro trabalhos publicados em 1940 além de sucessivos são complementares, por refletir sobre as especificidades de cada infância (separadas em 3 diferentes grupos de acordo com o desenvolvimento físico-psíquico), bem como sobre qual seria a Educação Física necessária para esses grupos.

O primeiro deles, Educação física infantil: primeira infantil – período pré-escolar, é uma introdução desses quatro trabalhos produzidos em 1940. Loyola apresenta um discurso otimista sobre a Educação Infantil e sobre a capacidade que ela teria de fomentar futuramente a felicidade e a grandeza da nação; sobre a importância e a relevância de uma Educação Física específica para a Educação Infantil pelas características do desenvolvimento das crianças pequenas, e por ser esta a base da formação de um bom homem, entendido como um indivíduo industrioso e orgulhoso de sua pátria. Loyola divide a infância em três diferentes etapas de acordo com o desenvolvimento físico-psíquico das crianças: “[...] 1ª INFÂNCIA que vai do nascimento até os três anos de idade; 2ª INFÂNCIA dos três aos sete anos; 3ª INFÂNCIA dos sete aos doze anos” (LOYOLA, 1940, n. 41, p. 37). Para ele, a primeira infância pertenceria aos cuidados da família e a segunda e terceira, à instituição escolar. Por isso, segundo o autor, seria necessário que os pais, como os primeiros professores a que as crianças teriam acesso, possuíssem os conhecimentos sobre a Educação Física. Ainda nesse trabalho, atenta-se para a primeira infância, subdividindo-a em diferentes estágios e descrevendo as características fisiológicas, neurológicas e motoras de cada um, bem como os métodos de educação correspondentes. Em termos pedagógicos, Loyola reafirma que, nessa fase, os cuidados se restringem aos pais, ficando alheia qualquer intervenção do professor, que deve planejar diariamente suas aulas, enfatizando os exercícios a serem trabalhados, bem como especificando o tempo de cada atividade, que aqui deve ser trabalhada individualmente, já que se resume a exercícios de massagem, estimulação e correção.

Como típico da época em que vivia, não deixava de enfatizar, em todos os seus escritos, a questão da eugenia, da preparação do homem que representaria a nação brasileira. Segundo ele, devemos lembrar que a criança de hoje será o homem de amanhã, por isso devemos educar um “[...] caldeirão de gerações fortes e sadias, vitoriosas nos embates da vida, perpetuadoras do prestígio da raça” (LOYOLA, 1940, n. 41, p. 40).

O segundo, Educação física infantil: segunda infância, apresenta-nos as características fisiológicas, neurológicas e motoras da segunda infância. Loyola aponta, como princípio norteador, que a criança se educa brincando. Apresenta as funções moral e higiênica da Educação Física e discute como trabalhar diante da fase de desenvolvimento dessas crianças. Assim como no trabalho anterior, subdivide essa fase em etapas, caracterizando e explicando como trabalhar a Educação Física em cada uma delas (duração e conteúdo da aula). Destaca ainda a importância de respeitar e aproveitar as especificidades da idade, deixando claro que não se pode esquecer da atenção especial à adaptação da escola ao público infantil, uma vez que essas crianças haviam terminado de sair da educação doméstica. Cabe agora aos professores organizar suas aulas, para trabalhar não mais individualmente, mas em grupos, sempre utilizando o brincar, porém deixando clara a necessidade da ordem e respeito ao professor desde cedo.

O terceiro, Educação física infantil: terceira idade, segue o padrão dos dois anteriores, caracterizando primeiramente o desenvolvimento das crianças nessa infância, seguido de algumas recomendações/indicações de como deveria ser trabalhada a Educação Física específica para essa fase da Educação Infantil. Loyola acrescenta que, nessa fase, pouco a pouco vai se diferenciando a Educação Física masculina da Educação Física Feminina. Agora, além de organizar suas aulas para grupos, o professor deve ainda estar atento às atividades que podem ser realizadas pelos dois sexos, e aquelas que devem ser pensadas e trabalhadas separadamente para meninos e meninas. Isso porque, nessa fase, os dois sexos desenvolvem características pubertárias, que vão diferenciando ainda mais o sexo masculino e o feminino que passam a ter necessidades distintas.

O autor indica algumas leituras adicionais e afirma que já não era possível separar a Educação Física da educação moral/intelectual. Essa divisão era um erro, porque separava “[...] a vida intelectual e moral da vida física; é no conjunto harmonioso do desenvolvimento dessas três qualidades que repousa o segredo da formação de um indivíduo perfeito, completo” (LOYOLA, 1940, n. 43, p. 72).

O último trabalho de 1944, Educação física infantil, é escrito como forma de sintetizar suas ideias em relação à Educação Física infantil. Como havia feito nos três artigos anteriores, Loyola apresenta um programa de exercícios para serem realizados durante toda a infância, prescrevendo para os pais e para os professores formas exemplares de aulas, com modelos detalhados de como as atividades deveriam ser realizadas em cada uma das “infâncias”. Loyola deixa claro que o seu programa se pautava no Método Francês, já que ele era “[...] o método oficialmente adotado em nosso país para todas as escolas” (LOYOLA, 1940, n. 44, p. 50).

No ano de 1941, Loyola publica o Ginástica para o bebê, texto em que o autor explica e exemplifica que, para os bebês era necessária uma boa educação, desde cedo, já que eles seriam os futuros homens que representariam a pátria brasileira. Para ele, a Educação Física era a primeira educação com que o bebê deveria ter contato, pela sua relação com o movimentar-se e o brincar. Loyola ainda destaca a necessidade de essa Educação Física ser específica para essa fase da infância e apresenta um programa de ginástica para o bebê, além de dicas para a boa aplicação dessas atividades.

Nesse artigo o autor indica sua concepção de infância, que estava pautada nas ideias de Rosseau. Dizia Loyola: “Já em meados do século XVIII, Rosseau [...] se insurgiria contra certas normas tirânicas de tratar a criança submetendo-a a verdadeiros suplícios, tolhendo-se-lhe a liberdade que lhe é tão necessária e salutar” (LOYOLA, 1941, n. 53, p. 50). Assim como Rosseau, Loyola vê a infância como uma fase com características próprias, não sendo nossas crianças apenas adultos em miniatura, nem a infância somente uma preparação para a vida adulta.

Ainda no ano de 1941, publica o livro Ginástica para Todos em que reserva dois momentos para a Educação Física Infantil. Como boa parte dos seus livros resultam de suas publicações na revista Educação Physica, esse texto foi uma reorganização do que ele já havia produzido nos anos de 1940 e 1941.

Por fim, seus três últimos trabalhos publicados na Revista, datados de 1942, todos com o mesmo título, Educação física infantil: breve notícia sobre a educação física nas escolas primárias das principais nações do mundo, são, como o nome aponta, o conjunto de análises que Loyola faz da situação da Educação Física Infantil nas escolas primárias das principais nações do mundo. Com base nessas análises, ele afirma que, nos países civilizados, já não se discutia a necessidade da prática da Educação Física Infantil, por isso já ter se tornado claro. Nesses lugares, ela tinha importante papel na formação integral do indivíduo e na eugenia da raça. Discutia-se como a Educação Física deveria ser aplicada de forma que pudesse contemplar as especificidades de cada idade.

De acordo com Loyola, os países civilizados já haviam produzido a unificação de seus sistemas de Educação Física o que, segundo ele, ainda faltava ao Brasil. Nos 17 países que ele cita, a Educação Física estava presente, em alguns de forma obrigatória e em outros era facultativa nos currículos escolares, delimitando os diferentes horários em que as aulas deveriam ser desenvolvidas, as atividades realizadas, bem como a relação que deveria existir entre a Educação Física e as demais disciplinas escolares. O autor conclui que os países que assumiram a Educação Física na formação da infância deveriam se exemplos a serem seguidos pelo Brasil. Enfatizava que uma “viajem” pelo mundo era necessária para percebermos como as nações desenvolvidas lidavam com a Educação Física de seu povo, principalmente das crianças. Esclarecia o autor que a preocupação com a infância e sua educação tornava possível que as crianças se modernizassem.



Considerações finais

Percebemos que Loyola acumulou uma vasta e rica produção, apesar do curto período em que escreveu sobre a Educação Física infantil. Muito do que ele expressou sobre a temática ainda é atual, apesar de possuir uma produção datada, tanto em relação aos objetivos da Educação Física para a infância, quanto sobre as teorias que utiliza para significar a presença dessa disciplina nas escolas e em outros espaços de socialização da infância.

A Educação Física Infantil, nos escritos de Loyola, é uma necessidade que começa no nascimento da criança e se estende até os 12 anos, porém deve ser sistematiza não apenas em discursos, mas em programas específicos para os bebês e as crianças pequenas, com atividades que contemplassem as diferenças fisiológicas, neurológicas e motoras, sem esquecer que também deveriam possuir um conteúdo moral que garantisse a formação de um indivíduo perfeito, completo, capaz de servir à nação. Guiado pelas discussões que aconteciam no Brasil nas décadas de 1930 e 1940, sobre o melhoramento da raça, da higiene, da eugenia, do trabalho e da industrialização, Loyola justificava a Educação Física como necessária para a formação e produção do homem forte representante de um país moderno, livre de seus males de origem e apto a entrar no concerto civilizatório. Para ele, essa Educação Física deveria iniciar-se na infância, pois, quanto mais novo, mais fácil seria corrigir as más tendências e deformidades físicas e morais, fruto dos males de origem ou adquiridas no convívio social. Além disso, defende ainda que a Educação Física deveria ser nossa primeira educação já que, antes da linguagem oral, nós nos expressamos por meio da linguagem corporal.

As ideias propostas por Loyola para a Educação Física Infantil enriquecem a nossa literatura sobre a temática, pois percebemos que historicamente essa foi uma das preocupações que motivou a produção de uma disciplina escolar denominada de Educação Física. A discussão que ele faz sobre a Educação Física, principalmente a realizada de zero a três anos, é ainda escassa (FREITAS, 2007). Poucos intelectuais produziram pensando nessa faixa etária. Como segue a concepção de infância de Rosseau, Loyola mostra que acredita na infância como uma fase com características próprias que devem ser respeitadas, e não apenas como uma preparação para a idade adulta, como se as crianças fossem adultos em miniatura. Por isso, afirma que devemos aproveitar e respeitar o brincar na educação de nossas crianças.

Além das questões específicas da Educação Física Infantil, Loyola discute temas ainda pouco trabalhados, como a Educação Física feminina, assunto que deve ser investigado em outros exames de sua obra.

Não tendo dúvidas sobre a necessidade da Educação Física Infantil, Loyola demonstra que as grandes nações também já tinham clareza sobre a necessidade dessa disciplina na educação das crianças. Assim como esses países, o Brasil precisava acompanhar as discussões e discutir qual deveria ser a Educação Física que contemplaria as especificidades das crianças pequenas.

Apesar de esse discurso ter sido realizado nas décadas de 1930 e 1940, praticamente todos os pontos discutidos por Loyola sobre a Educação Física Infantil ainda hoje estão sendo debatidos, mas utilizando como suporte outras teorias da aprendizagem e desenvolvimento infantil. Atualmente a (re)inserção da Educação Física na Educação Infantil nos Estados brasileiros é escassa. Poucos são os Estados que contemplam essa modalidade de escolarização. Isso indica que estudos mais apurados e aprofundados sobre Loyola e outros atores da História da Educação Física brasileira se mostram relevantes para compreendermos o itinerário da Educação Física na escolarização das crianças, o que ajuda a manter os debates contemporâneos.



REFERÊNCIAS

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BERTO, R. C. Regenerar, civilizar, modernizar e nacionalizar: a Educação Física e a infância em revista nas décadas de 1930 e 1940. 2008. 182f. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Programa de Pós-Graduação em Educação Física, Universidade Federal do Espírito Santo, 2008.

CHARTIER, R. A história cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.

FREITAS, L. L. L. de. Saberes mobilizados pelos professores de educação física na prática pedagógica com crianças de zero a três anos. Trabalho apresentado no VII Congresso Espírito-Santense de Educação Física, Vitória, 2007.

LOYOLA, H. Educação física infantil (dos 4 aos 6 anos). Educação Física, Rio de Janeiro, n. 34, p. 13-36, set. 1939.

LOYOLA, H. Educação física infantil: primeira infantil: período pré-escolar. Educação Física, Rio de janeiro, n. 41, p. 37-40, abr. 1940.

LOYOLA, H. Educação física infantil: terceira idade. Educação Física, Rio de Janeiro, n. 43, p. 50-51 e 72, jun. 1940.

LOYOLA, H. Educação física infantil. Educação Física, Rio de Janeiro, n. 44, p. 50-52; 54 e 77, jul. 1940.

LOYOLA, H. Ginástica para o bebê. Educação Física, Rio de Janeiro, n. 53, p. 50-53, abr. 1941.

NUNES, C.; CARVALHO, M. M. C. de. Historiografia da educação e fontes. In: GONDRA, J. G. (Org.). Pesquisa em história da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

SCHNEIDER, O. A revista Educação Physica (1932-195): estratégias editoriais e prescrições educacionais. 2003. 342 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2003.

SCHNEIDER, O. Educação Physica: a arqueologia de um impresso. Vitória: Edufes, 2010.

SIMÕES, R. D. A Educação Física para mulheres inscritas nas fileiras integralistas da década de 1930. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 5. 2008.

Aracaju – SE. Anais... Aracaju: Editora da Unit, 2008, p. 9-431.

SIMÕES, R. D. A educação do corpo no jornal A Offensiva (1932-1938). 2009, 184f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.

SOUZA NETO, S. de. Profissão, história e sociedade: Hollanda Loyola e a Educação Física. In: CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, II, 1998, São Paulo – USP. Atas do II Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação (Vol. 2).-práticas educativas, culturas escolares, profissão docente. São Paulo – USP, 1998, p. 569-588).

______. “Educação Physica”: Revista de Esporte e Saúde – profissão, história e sociedade. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA, XVII, 2004, Campinas – Unicamp. Anais... Campinas – Unicamp, 2004. Cd-rom.

VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Lisboa: Edições 70, 1971.




Notas

[1] O estudo faz parte de uma investigação desenvolvida no Mestrado em Educação Física da Universidade Federal do Espírito Santo por Luana Luzia Lóss de Freitas.

[2] Souza Neto Profissão, história e sociedade: Hollanda Loyola e a Educação Física (1998) e Educação Physica: Revista de Esporte e Saúde – profissão, história e sociedade (2004); Almeida Unidade de doutrina e pedagogia da Educação Física nos escritos de Hollanda Loyola (1939-1944 ) (2008); Simões Educação Física para mulheres inscritas nas fileiras integralistas da década de 1930 (2008) e A Educação do corpo no jornal A Offensiva (1932-1935) (2009); Schneider A Educação Physica (1932-1945) – estratégias editoriais e prescrições educacionais (2003); Berto Regenerar, civilizar, modernizar e nacionalizar: a educação física e a infância em revista nas décadas de 1930 e 1940 (2008).

[3] Segundo Schneider (2003), o período de maior estabilidade da Revista Educação Physica se deu de 1938 a 1941, quando conseguiu ampliar e manter a sua regularidade nas publicações.

[4] O Jornal A Offensiva foi criado como forma de divulgação das ideias da Ação Integralista Brasileira – movimento social de grande repercussão política, que emerge no Brasil Republicano, arquitetado por Plínio Salgado, como chefe nacional. O jornal A Offensiva circulou entre 1932 e 1938.

[5] Atletismo: regras e entrenamento (1939); Volley ball: regras e instruções (1938); Basquetebol: regras para 1940 (1940); Jiu-jitsu (1940); Jogos (1940); Educação Física: tratado de pedagogia (1940); Tênis: técnica, comentários e regras (1940); Volley ball: regras e instruções para 1941 (1941); Basket Ball: regras e instruções (1941); Ginástica para todos (1941); Basket ball: regras e instruções para 1942 (1942); e Pequenos esportes (1944), lançados pela Companhia Brasil Editora.

[6] Ver Schneider (2010).

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Prévia do artigo SCHNEIDER, O.; TOLEDO, M. R. de A. A revista Educação Physica (1932-1945): fórmula editorial, prescrições educacionais, produtos e publicidade. Revista Brasileira de História da Educação, n. 20, p. 235-281, maio/ago. 2009. ASSUNÇÃO, W. R. SCHNEIDER, O. SILVA, A. F. OLIVEIRA, A. S. F. A Associação Cristã de Moços e a difusão do americanismo no Brasil (1932-1950). In: XI Congresso Espírito-Santense de Educação Física, 2011, Vitória. Educação Física nas políticas públicas: trabalho e gestão integrada. Fortaleza: Itarget, 2011. v. 1. p. 1-5. Próximo artigo
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